O MEDIADOR HUMANISTA

OBJETIVOS & DESAFIOS

Quem é o mediador?

O mediador humanista é, antes de tudo, um facilitador de diálogos que enxerga o ser humano para além do conflito.

Sua atuação não se limita a conduzir uma conversa ou buscar acordos. Ele cria um espaço seguro, acolhedor e respeitoso, onde as pessoas possam se expressar com autenticidade, serem ouvidas de forma genuína e, principalmente, se reconhecerem umas nas outras.

Diferente de uma postura puramente técnica, o mediador humanista atua com presença, sensibilidade e consciência. Ele compreende que todo conflito carrega emoções, histórias e necessidades que precisam ser legitimadas. Mais do que resolver uma situação pontual, ele contribui para transformar relações, restaurar conexões e promover crescimento pessoal e coletivo. Sua atuação impacta não apenas o momento do conflito, mas também a forma como as pessoas passam a lidar com desafios futuros.

Karina e Jacqueline

Ser um mediador humanista é assumir um compromisso com o cuidado nas relações humanas.

➜ O que fazem os mediadores?

Os mediadores atuam como catalisadores, facilitando o diálogo. Eles detectam o não dito por trás do dito, ajudando as partes na tomada de consciência de uma realidade, nem mesmo suposta, sobre si mesmo e sobre o outro. Assim, eles auxiliam no estabelecimento de uma outra qualidade de relação.

Os mediadores não são conselheiros, nem árbitros, nem conciliadores, são neutros. Eles permitem que cada parte se sinta compreendida e, assim, elas, por si mesmas, encontram a solução. Os mediadores atuam com imparcialidade, independência e empatia, desenvolvendo o procedimento da mediação por meio do jogo de espelhos, silêncio e acompanhamento.

➜ O “jogo de espelhos”

O “jogo de espelhos” entre as partes em conflito e os mediadores consiste nos sentimentos e emoções sentidas e refletidas pelos mediadores a partir da fala das partes. Os mediadores, utilizando as expressões: “eu sinto” ou “eu te sinto”, vão oportunizando as partes a reconhecerem ou não aqueles sentimentos e emoções e falarem sobre eles.

Aqui torna-se importante, como diz Jacqueline, a percepção do não-dito, do sentido oculto do que foi dito, daquilo que foi voluntariamente ocultado ou simplesmente ignorado, mas que pode vir à tona, graças ao jogo de espelhos.

Assim, os mediadores podem se tornar uma espécie de catalisador entre o dito e o não dito, auxiliando as partes na expressão de suas dualidades. Esse processo é bastante importante, visto que geralmente o problema e a demanda enunciados pelos protagonistas não correspondem ao real problema e demanda das partes, como afirma Jacqueline após uma experiência de quase dois mil casos de mediação.

O silêncio é realmente fundamental na Mediação, pois é ele que “situa o nível de troca do diálogo. Não são as palavras que permitem a resolução da situação, ou seja, um raciocínio de ordem lógica, mas sim o espaço criado pelo silêncio.” (MORINEAU, 2008, p. 181, tradução nossa).

Ainda segundo Jacqueline, o silêncio proporciona um diálogo de cada parte consigo mesma, visto que, graças ao “jogo de espelhos”, as partes são reenviadas para si mesmas, por meio das imagens refletidas.

Através dessa prática do diálogo, constata Jacqueline, a mediação se aproxima dos ensinamentos da filosofia socrática e do Evangelho cristão, proporcionando ao indivíduo o reencontro de seu eixo vertical terra-céu assim como de seu eixo horizontal homem-homem.

➜ A empatia: presença, silêncio, energia e não-julgamento

Na Mediação Humanista, a empatia é um elemento fundamental e, por isso, merece uma análise mais detida. Na Mediação, os mediadores se apresentam numa equipe de dois ou três, para facilitar a identifi­cação de cada parte com cada um deles. Eles agem para facilitar o diálogo, para facilitar a tomada de consciência do outro e para uma nova qualidade na relação, sem exercer o papel de árbitro, juiz, conselheiro ou mesmo conciliador. A postura deles é neutra, imparcial. Eles agem com empatia.

Empatia, segundo Faure e Girardet, é uma “qualidade de atenção multisensorial”, sem palavras. A empatia se torna, portanto, uma história de silêncio, que se estabelece a partir da energia lançada, da necessidade formulada, da conexão entre as partes. Este silêncio ajuda a parte no encontro do seu silêncio interior. A partir daí, as trocas entre as partes e os mediadores se dão em todas as dimensões sensoriais: palavras, gestos, atitudes, olhares, tom da voz, posições corporais, tensão e distensão físicas, sincronia das atitudes, ritmo respiratório, etc. Resumindo os pontos principais que caracterizam a empatia, tem-se: acolhimento do outro e doação de tempo, atenção e energia.

O processo da Mediação se desenvolve melhor com o real estabelecimento da empatia e o afastamento da simpatia ou antipatia. De fato, não é um aprendizado fácil, visto que o mais comum é o estabelecimento da simpatia ou antipatia, muitas vezes estabelecidas pelo julgamento e valoração daquilo que está sendo dito. Ouvir, doar atenção, acolher sem julgar não é uma técnica, mas uma experiência, um aprendizado contínuo.

O aprendizado do não-julgamento é um elemento essencial na Mediação. O julgamento sobre o que se é dito é bastante comum na nossa sociedade, no entanto, essa prática é responsável por vários conflitos nas relações. Geralmente os conflitos são de responsabilidade de ambas as partes, mas é bastante difícil esse reconhecimento.

A prática da Mediação Humanista se baseia na interação de todos esses elementos, que, juntos, caracterizam o processo de acolhimento do sofrimento por meio da importância da palavra, da autenticidade da expressão do sofrimento e da energia da benevolência capaz de propiciar às pessoas que apresentam o conflito uma nova percepção sobre o conflito. Essa prática contribui, portanto, para promoção da cultura da paz.

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