A MEDIAÇÃO HUMANISTA

SIGNIFICADO & PROCESSO

O que é a mediação?

Mediação, como dizia Jacqueline Morineau (fundadora da mediação humanista), é estar entre, estar no meio de, pois estar entre é fundamental para se atingir o coração do conflito. Para Jacqueline, um dos principais aspectos da Mediação fora já identificado por Platão e constitui a capacidade de ver as coisas na sua unidade e na sua multiplicidade. É diante dessa realidade múltipla e única que se desenvolve o processo da Mediação Humanista, que, embora possa ser oportunizado a todos, depende de cada um a abertura e a aceitação do processo.

A Mediação Humanista não é uma técnica, mas uma prática de dar a palavra, de oferecer um espaço ao conflito e, por meio de um “jogo de espelhos”, oportunizar uma outra perceção do conflito e, quem sabe, o desatrelamento da condição de sofrimento, alcançando a paz. Abre-se, então, um espaço para se exprimir a diferença e reconhecer a diferença alheia.

A Mediação Humanista é, portanto, o espaço-tempo durante o qual o sofrimento pode se exprimir, pode ser acolhido e pode se transformar. É um momento, um lugar onde é possível exprimir nossas diferenças e reconhecer as diferenças dos outros. É o cenário onde o drama do conflito, com frequente ruptura da relação, se desenvolverá.

Jacqueline Morineau (fundadora da mediação humanista)

É o cenário onde o drama do conflito, tem espaço para desenvolver-se livremente.

A mediação é um método de resolução de conflitos que promove o diálogo, a escuta ativa e a construção conjunta de soluções. Diferente de processos judiciais tradicionais, ela busca aproximar as partes envolvidas, criando um ambiente seguro para que cada pessoa possa expressar suas necessidades, interesses e sentimentos.

Nesse processo, o mediador atua como um facilitador imparcial, ajudando as partes a compreenderem melhor o conflito e a encontrarem caminhos possíveis para um acordo. Mais do que resolver um problema pontual, a mediação fortalece relações, desenvolve habilidades de comunicação e contribui para uma cultura de paz.

A mediação humanista coloca o ser humano no centro de todo o processo.

Baseada em princípios como empatia, acolhimento, respeito e autenticidade, a mediação humanista reconhece que, por trás de todo conflito, existem histórias, emoções e necessidades que precisam ser compreendidas, não apenas resolvidas.

Nesse modelo, o foco não está apenas na construção de acordos, mas na transformação das relações. O conflito deixa de ser visto como um problema e passa a ser entendido como uma oportunidade de crescimento, reconexão e desenvolvimento humano.

A mediação humanista valoriza a escuta profunda, o olhar sensível e a presença genuína, permitindo que as partes se sintam verdadeiramente vistas e ouvidas. É um caminho que promove não apenas soluções mais conscientes, mas também mudanças duradouras na forma de se relacionar.

➜ O processo da mediação

O “espírito da Mediação”, como Jacqueline intitulou seu primeiro livro, aponta para uma nova concepção de Mediação que surge da ligação entre uma base filosófica enraizada na cultura clássica, em especial, nos filósofos gregos e a experiência de campo, com a prática da Mediação. Esse espírito consiste na busca da harmonia, que, segundo Morineau, não pode nascer senão das diferenças e contradições localizadas no coração da experiência humana.

Por isso, “a mediação é a cena onde o drama do conflito se desenvolve”.
A Mediação Humanista se desenvolve em três etapas: Theoria, Crisis e Catharsis, também identificadas no direito grego e na tragédia grega.

➜ Theoria

A Theoria, fase incial, consiste em Accueil, Exposé des faits e Resumé. O Accueil consiste na recepção das pessoas em conflito com benevolência. Após essa recepção, o mediador encarregado dessa primeira fase expõe o quadro da Mediação, informando o discorrer do processo e ressaltando a confidencialidade. É um momento muito importante, porque é o primeiro contato das pessoas com os mediadores. As pessoas chegam e é fundamental esse momento de acolhimento para que elas se sintam à vontade, diante de uma situação de exposição, já que elas falarão de assuntos, às vezes, bastante íntimos para pessoas desconhecidas. Certamente o que contorna esse desconforto é a empatia estabelecida pelos mediadores e a sinceridade e respeito do decorrer do processo.

A Exposé des faits é o momento que sucede o Accueil. Nesse momento, o mediador que fez a recepção das partes em conflito passa a palavra a cada uma das partes, para que elas exponham sua percepção do conflito, uma após a outra, sem ser interrompida. Durante esse momento os mediadores só escutam, doando sua qualidade de presença.

Após a exposição dos fatos pelas partes, passamos ao momento do Resumé, quando um outro mediador resume aquilo que ele entendeu dos pontos de vista de cada uma das partes de maneira imparcial e objetiva, abrindo espaço para que algo seja acrescentado ou algum mal-entendido seja superado. A partir de então, há uma abertura ao diálogo, inclusive consigo mesmo. É comum que o mediador que fez o resumo dos fatos inicie o jogo de espelhos, dirigindo-se a uma das partes e refletindo o seu sentir.

Nesta fase, quando os mediadores entram em contato com o conflito das partes, ou seja, quando as partes expõem “fragmentos de suas vidas”, os mediadores estão a contemplar “sentido etmológico de teoria, guardando uma justa distância para ‘ver’ e ‘discernir’ o sentido oculto das coisas” (MORINEAU, 2008, p. 127, tradução nossa).

Durante a Theoria, cada parte se exprime, fala de como viveu certa situação. É um momento de expressão e escuta recíproca entre as partes em conflito.

➜ Crisis

A Crisis se caracteriza, como diz Jacqueline (2008, p. 128, tradução nossa), pela “confrontação dos dois sofrimentos, cujas histórias narradas permitirão reconstruir o encadeamento das causas.” Tudo o que foi narrado pelas partes, durante a Theoria, provoca reações dos protagonistas, como diz Jacqueline, logo eles se percebem em oposição. É justamente essa confrontação entre as partes que se chama Crisis, logo, a Theoria é que provoca a Crisis.

Nesta etapa, ocorre a troca que vai se dando a partir do reconhecimento das emoções, graças ao “jogo de espelhos”, o reconhecimento das necessidades não satisfeitas que compõem a origem das emoções expressas e a tradução das necessidades em valores (os valores de cada um, a visão de mundo expressa através de valores).

Segundo Jacqueline, essa dualidade entre as partes em conflito e os mediadores remete cada um dos protagonistas a sua própria dualidade, ao seu próprio combate íntimo. Essa fase vem precedida pela Catharsis, visto que, por meio do jogo de espelhos e dos seus reflexos, as partes vão pouco a pouco se distanciando de suas emoções e adquirindo um outro olhar sobre a situação vivenciada que pode propiciar uma mudança no comportamento de cada um. Nesse momento chegamos à Catharsis.

➜ Catharsis

A Catharsis consiste na clarificação após a Crisis, na purificação, na transformação – reparação moral e material.

Nessa fase há um reconhecimento recíproco das pessoas em conflito, um reencontro nos valores, um novo olhar sobre o outro e sobre a situação e, daí, a emergência de soluções escolhidas pelas próprias pessoas em conflito e não soluções impostas por quem quer que seja.

Trata-se da retomada dos fatos em um outro nível. Como diz Morineau (2008, p. 129, tradução nossa), o desenvolvimento de todo o processo só é possível quando o grito, que está por trás do sofrimento, é liberado. Só assim a transformação final – objetivo do processo de Mediação – se opera, e o sofrimento – “uma forma de morte” – se transmuta em vida. Assim, “há a transformação da pessoa, de sua atitude, uma ruptura com a mentira para o outro e para si, uma consciência do mundo de ilusões que foi criado e a visão de um novo porvir.”

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